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A minha curva de decisão

Liss Bischoff

Até que ponto você está disposto a chegar em busca de objetivos estéticos e de saúde?

Quando começamos uma mudança de estilo de vida em busca de mais saúde, bem estar, um corpo mais magro e bonito, é comum “nos perdermos” um pouco em relação a isso.

Será que eu preciso fazer exatamente o que faz aquela pessoa que eu sigo nas redes sociais (aquela que é a minha referência sobre onde eu quero chegar)? Tenho que seguir à risca o que me dizem os mais experientes no assunto? Será que eu consigo? E o mais importante: será que eu QUERO? Será que eu estou disposta a isso?

Quando eu vejo uma moça na praia, com o corpo definido pela musculação, eu também quero aquele corpo, claro! Mas até onde eu estou disposta a ir pra alcançar aquele corpo? Será que eu estaria disposta a passar 2 ou 3 horas na academia por dia? Spoiler: no meu caso, não! Não, eu não estou disposta. Faço atividade física quase por obrigação e nada no mundo me convenceria a passar todo esse tempo numa academia diariamente.

Mas a mesma situação acontece com várias outras coisas na nossa vida. Temos que tomar esse tipo de decisão o tempo todo: até que ponto estamos dispostos a chegar em busca de nossos objetivos?

Se você quiser passar num concurso público, por exemplo, tem que estar disposto a estudar dia, noite, fins de semana.

Se quiser guardar dinheiro para fazer uma viagem ao exterior, vai ter que estar disposto a economizar (talvez deixando de comprar algumas coisas de que gosta por um tempo).

 

Relação custo/benefício

Então… eu não sei quanto a vocês, mas eu me questiono o tempo todo: até que ponto eu estou disposta a ir?

E eu percebi que existe uma forma simples de entender até que ponto alguém está disposto a ir: a relação custo/benefício que a pessoa enxerga em cada situação.

Alguém só faz alguma coisa se considerar que os benefícios decorrentes disso superam os custos.

Vamos retomar o exemplo: Se você quiser passar num concurso público tem que estar disposto a estudar dia, noite, fins de semana. Eu fiz isso. E, ainda por cima, eu trabalhava durante o dia e cursava faculdade à noite.

Por que eu estava disposta a usar todo o restante do meu tempo livre pra estudar sem folga durante muitos meses da minha vida (ao invés de fazer programas divertidos com meu marido e meu filho)? Porque os benefícios que eu enxergava superavam os custos.

No caso do corpo definido de praia, não… Por mais linda que eu ficasse, esse benefício não conseguiria superar o custo de ficar 2 ou 3 horas por dia na academia.

E por que isso acontece? Por que eu estou tão disposta a gastar horas e horas estudando, mas não estou disposta a gastar as mesmas horas na academia? A resposta é: PRIORIDADES. E prioridades são totalmente individuais. O que é prioridade pra mim, pode não ser pra você; e vice-versa.

Vou abrir parênteses aqui:

Quem me conhece, sabe que uma das minhas prioridades é viajar. Eu prefiro investir meu dinheiro nisso do que numa casa enorme, num carro de luxo ou num armário cheio de roupas e sapatos de grife. Eu escolho investir meu tempo, esforço e dinheiro em coisas que me tragam benefícios de longo prazo. Não em prazeres momentâneos. Eu escolho investir em experiências, não em bens materiais.

Vamos fazer um exercício: Se você estivesse à beira da morte hoje e fosse fazer uma retrospectiva da sua vida e pensar nas coisas que foram mais importantes pra você nesse tempo – aquelas coisas que você lembra com saudades e que você diria, com certeza, que valeram a pena –, que coisas seriam essas?

Vou responder o que me vem à mente (e você faça o seu exercício aí):

Com certeza eu lembraria primeiro das pessoas maravilhosas que eu conheci e tive o privilégio de conviver ao longo da minha vida (em especial, aquela que eu escolhi pra dividir a minha vida – meu marido).

Eu lembraria justamente daquelas viagens que fiz. Dos lugares incríveis que tive oportunidade de conhecer. Das experiências que tive nesses lugares. Das pessoas que eu tive oportunidade de conhecer lá. Lembraria dos sentimentos e emoções que essas viagens me proporcionaram.

Eu lembraria dos momentos cotidianos. Em casa, no trabalho, no lazer.

Lembraria do dia em que conheci meu marido. Do dia do nascimento do meu filho. Do dia da minha formatura.

Lembraria de todos os objetivos e sonhos que tive oportunidade de realizar ao longo da minha vida.

Com certeza eu NÃO lembraria dos carros que tive ou dos sapatos e roupas de grife que usei.

Não lembraria do hambúrguer do Mac Donalds, das pizzas e bolos.

Então fica fácil saber o que realmente importa.

Fechando parênteses e voltando pro tema do texto…

 

A curva de decisão

Em microeconomia você encontra conceitos, teorias e explicações interessantes (e como eu sou da área de Contabilidade e Administração Financeira, inevitavelmente eu acabo trazendo essas explicações para outros campos da minha vida).

A imagem acima ilustra a maximização do lucro numa empresa.

Como o lucro corresponde à diferença entre receita total e custo total, para maximizar lucros, a empresa deve optar pelo nível de produção para o qual a diferença entre receita e custo seja máxima.

Esse ponto – de maximização do lucro – é exatamente a linha pontilhada no gráfico que passa pelos pontos A e B.

Se a empresa começar a produzir e vender mais do que o representado naquele ponto, o lucro diminui, porque os custos marginais começam a superar as receitas marginais. Ou seja: pra cada incremento de receita (benefício), o incremento dos custos correspondentes é proporcionalmente muito maior.

Vale a pena a empresa arcar com custos mais elevados pra alcançar incrementos mínimos de benefício?

 

Exemplificando

Tá confuso? Vamos entender melhor…

Em low carb, minha jornada começou evitando farinhas e açúcares. Daqui a pouco passei a evitar também os grãos e leguminosas. E depois passei a reduzir outros alimentos de alto carboidrato (como frutas doces e raízes).

Depois de um tempo, eu constatei que alguns alimentos eu não podia apenas “evitar” ou “reduzir”, eu tinha excluir de uma vez por todas e pra sempre (como o trigo e todos os produtos que contém glúten, uma vez que descobri que tenho sensibilidade ao glúten não celíaca).

E assim eu fui evoluindo na minha experiência low carb em busca de melhoria da saúde e de um corpo mais magro.

Demorou um pouco até eu tomar coragem para excluir pra sempre qualquer alimento com com glúten da minha alimentação. Porque o glúten está literalmente em tudo! Então, ao decidir excluir o glúten definitivamente, alguns desafios surgem. É preciso começar a prestar atenção em qualquer coisa que você coma fora de casa, pois o glúten pode estar escondido em muitos lugares que não nos damos conta (aí entram molhos, chocolates, até mix de castanhas, por exemplo).

Mas, tudo bem! Eu decidi excluir o glúten da minha vida porque SEM ELE eu me sinto muito melhor.

Os benefícios: estou evitando inflamações no meu organismo, não tenho mais dores de cabeça, não tenho mais azias, gastrite, refluxo, não tenho outros sintomas relacionados, como coceiras, etc.

Custos: eu precisei abrir mão totalmente de comer algumas coisas que antes eu ainda comia eventualmente (na casa de familiares, por exemplo), eu precisei trocar produtos com glúten por outros sem glúten, minhas opções pra comer em certos locais ficaram bem mais reduzidas (uma vez que quase tudo que tem à venda contém glúten), etc.

Mas na minha curva de decisão, não resta dúvida: eu sei que os benefícios da exclusão do glúten superam os custos.

Na minha avaliação, eu estou no ponto ótimo da curva, onde eu tenho muitos benefícios com um pequeno custo.

Agora vamos a outro exemplo:

Já comentei, em algumas postagens, eu passei 40 anos da minha vida sem comer salada (e vegetais em geral). Não comia porque não gostava! Pra mim, tinha gosto de mato!

Mas ao decidir mudar minha alimentação, meu estilo de vida, pra perder peso e melhorar minha saúde, eu me obriguei a aprender a comer salada.

Com low carb eu descobri que podia temperar minha salada e faze-la ficar deliciosa. Assim a salada deixou de ter gosto de mato. E passou a fazer parte da minha rotina alimentar. E vários quilos foram embora…

Desde então, eu costumo usar azeite de oliva junto com algum molho de salada (molho ceaser ou algum molho à base de queijo). Também coloco um pouco de bacon eventualmente, dentre outras coisas que dão sabor à salada.

O molho de salada que eu usava antigamente continha glúten. Então, com o diagnóstico da sensibilidade ao glúten e a consequente exclusão total do glúten da minha alimentação, eu tive que procurar opções de molho sem glúten. E eu achei um que atende essa condição (não é muito fácil achar isso).

Certo dia, numa conversa entre amigos (também do meio low carb), esse molho virou assunto. E alguém me alertou sobre o fato desse molho industrializado conter glutamato de sódio.

Esse é um daqueles momentos em que você pensa: “glutamato de sódio é um lixo industrial, então o melhor é excluir isso da alimentação”.

Mas a pergunta é: “Eu estou disposta a fazer mais essa exclusão?”

Vamos avaliar… eu tenho algumas opções:

Eu posso tentar trocar esse molho por outro semelhante que não contenha o glutamato de sódio. Missão hercúlea, já que a maioria dos outros molhos contém glúten (e a prioridade é excluir o glúten).

Eu poderia optar por excluir totalmente, ao invés de tentar trocar. Essa deve ser a melhor opção, inclusive. Mas aí eu volto a ter o problema original (que me fez passar 40 anos da minha vida sem comer salada): o gosto de mato.

Sim, eu já tentei temperar a salada só com azeite de oliva, sal, vinagre… Não rola! Eu não gosto de vinagre na salada. E só azeite de oliva também não.

Aí alguns podem sugerir: Se esse é o problema, basta fazer dieta carnívora então. Afinal, você não come salada, então não precisa do molho.

Eu já tentei isso e pra mim a experiência não foi legal. Então essa não é uma opção.

Então, excluir totalmente o molho provavelmente me levaria a uma situação em que eu me obrigaria a comer a salada com gosto de mato – o que me tornaria extremamente infeliz – ou me levaria de volta à situação em que eu não comia os vegetais e pesava quase 20 quilos a mais.

Então voltamos à minha curva de decisão.

Como eu disse, eu já fiz um experimento com dieta carnívora, onde eu passei algumas semanas sem comer salada no almoço. Sem salada, sem molho.

Qual o benefício que eu senti eliminando a salada e o molho com glutamato de sódio? Nenhum, que eu tenha percebido! Pode até ser que meu corpo tenha melhorado em algum aspecto, talvez reduzindo os níveis de inflamação… eu não sei… O fato é que eu não percebi claramente os benefícios dessa exclusão. Mas eu percebi os custos.

Então a resposta é muito clara pra mim: Eu não disposta a chegar nesse ponto. Porque os custos marginais superam os benefícios marginais.

Eu não sou uma pessoa mimada. Já fiz mudanças bastantes significativas na minha vida em busca da melhoria da minha saúde. E estou disposta a fazer outras se necessário, desde que elas mostrem benefício real pra mim.

Eu sei que esse molho é um produto industrializado, que não é saudável, mas esse é um esforço que eu avalei que não vale a pena (na minha opinião, segundo as minhas prioridades).

 

Conclusão

Por que eu resolvi escrever esse texto?

Porque, como eu disse no início do texto, quando começamos uma mudança de estilo de vida em busca de mais saúde, bem estar, um corpo mais magro e bonito, é comum “nos perdermos” um pouco em relação a isso.

E eu vejo duas situações acontecendo:

A primeira é que a pessoa não dá uma chance para provar os benefícios. Ela foca só nos custos: “Ah, mas eu não consigo ficar sem comer pão”…

Não há resultado sem investimento.

Preocupada com o custo, a pessoa nem sequer tenta. Porque não quer arcar com esse custo. Com isso, ela jamais descobre os reais benefícios que poderia ter.

A segunda situação é o extremo oposto. A pessoa faz as mudanças, percebe os benefícios e fica numa busca incessante por mais: “se com 50 gramas de carboidrato eu emagreci X quilos, imagine com 20”; “se com 20 gramas de carboidrato eu emagreci Y quilos, imagine se eu zerar o carboidrato”…

Essa pessoa está focando só nos benefícios. Então ela elimina todas as frutas, elimina cenoura, beterraba, etc. Ela não come nada com glúten, lactose, glutamato de sódio, açúcar ou adoçante. Só come alimentos orgânicos, livres de pesticidas e hormônios. Não come certos vegetais, porque eles têm antinutrientes. Não come outros porque estão na categoria de FODMAPs. É perfeito! Será?… Daqui a pouco a pessoa vai estar comendo só gelo…

Em alguns casos, esse tipo de coisa pode levar a problemas como a carbofobia, ortorexia, etc.

Não me entendam mal! Tem gente que precisa mesmo evitar essas coisas. Tem gente que precisa eliminar alimentos estão na categoria de FODMAPs, outros precisam eliminar a lactose, etc. Pra essas pessoas, os benefícios da exclusão vão superar os custos.

Ou seja: voltamos de novo à curva de decisão.

ENTENDA! Essa curva muda de pessoa pra pessoa. Porque a situação individual muda, as necessidades e prioridades mudam… Mas estar ciente dos benefícios e custos envolvidos em cada uma das situações ajuda a tomar a decisão de forma mais tranquila e não passar do ponto.

Eu estou com a consciência tranquila em relação às minhas escolhas. E sei bem até que ponto estou disposta a ir em busca dos meus objetivos estéticos e de saúde. E não vou fazer algo só porque alguém acha que eu deveria fazer ou porque disse que isso é o melhor pra mim.

 

Autora:

Liss Bischoff – Resistência à Insulina

      

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