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A Dieta dos Mimados

Melissa Chaves

Eu estava lendo um livro excelente de Theodore Dalrymple, chamado “Podres de mimados”. Guardei as ideias dele, sempre me sentindo provocada e inquieta por suas reflexões. Leiam, pois não cabe falar desse livro maravilhoso aqui. Pelo título vocês podem imaginar o conteúdo.

Enquanto isso, nas redes sociais, pipocavam discussões sobre dieta, com basicamente dois lados, dois pontos de vista. De um lado, os defensores da moderação (só um pouquinho não tem problema) e da dieta flexível (você pode comer de tudo, desde que dentro de “x” limites). Do outro lado, os defensores do que se convencionou chamar de radicalismo. Não comem o que faz mal. Ou pelo menos tem o objetivo de não comer. Nada de açúcar, nada de glúten, pacotinhos industrializados, ou seja, nada de nada da indústria alimentícia. Comida limpa.

Eu gosto mais do segundo grupo, mas eu mesma como ou bebo uma porcaria de vez em quando. Então, eu não deveria defender a flexibilidade? A moderação? Sou uma farsa? Foi aí que Dalrymple encontrou com a dieta. E vou me explicar.

Os produtos hiper-palatáveis da indústria alimentícia, o glúten, o açúcar, os óleos de sementes, os aditivos alimentares, as bebidas alcoólicas, não fazem bem à saúde e ponto final. A fisiologia humana precisa de algum desses itens para funcionar bem? Não precisa. Há consequências? Sim, há consequências. As consequências são individuais e variam muito. Elas podem ser um massacre ou praticamente imperceptíveis. Não há regra. Mas eu não posso me abster de dizer o que acho por medo de magoar alguém, por medo da pessoa desenvolver uma compulsão ou algo parecido. Somos todos adultos.

Isso significa que todos devem parar de consumir esses produtos? É claro que não. É uma escolha individual. A pessoa pode achar que vale a pena pra sua saúde mental. Pode achar que encontrará um equilíbrio. A consequência desse consumo nela, individualmente, pode ser ínfima. Essa é sua escolha. No fim das contas, cabe a cada um decidir o custo benefício de comer e beber o que acha que deve. De acordo com sua individualidade.

No entanto, com o conhecimento que adquiri sobre alimentação, eu dizer pra alguém (que me pergunta) que comer um pouquinho não tem absolutamente nenhum problema, é impossível. Pode ter problema. Pode ser um problema muito pequeno, perceptível só a longo prazo, ou não. Ou você pode jurar que as suas exceções aos sábados e domingos nunca vão repercutir na sua saúde, no seu intestino e nem em absolutamente nada? Sinto muito. Não há como fazer essa previsão. O indivíduo pode querer escolher arriscar e não ter que se privar de comer e beber o que gosta. E dessa forma está bom pra ele, individualmente. Isso é liberdade, livre arbítrio. Eu mesma faço isso na minha vida pessoal.

No entanto, se me perguntam, como profissional de saúde, médica nutróloga, a minha opinião sobre algum alimento, não vou mimar ninguém dizendo que sua escolha alimentar é isenta de consequências. Há consequências. É a vida. Cabe a cada um escolher o que tolera. E se responsabilizar. A parte que me cabe é informar, falar a minha opinião sem medo de ferir susceptibilidades e tentar ajudar. E quanto a mim pessoalmente? Eu mesma lido com as consequências das minhas escolhas, todos os dias. Não mimo e não quero ser mimada. Se eu pergunto, me fale a verdade. Quem decide se ela dói ou não, sou eu.

 

Autora:

Dra. Melissa Chaves

  

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