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Sobre avós, tradições e cigarros

Maurício Del Bianco

É comum ouvirmos sobre tradições e sobre como moldam os hábitos e as culturas das pessoas. Tradições nos influenciam desde que nascemos, e um aspecto importante a ser notado é que, até certa idade, nenhuma delas passa pela nossa escolha. E, ao longo da vida, tendemos a reproduzir essas tradições nas quais já nascemos imersos através de diversos mecanismos, sendo vários deles inconscientes. O cérebro, desde cedo, é programado para reconhecer padrões e fixar conceitos e noções. Associamos tradições a “portos seguros” que nos colocam em uma zona mental confortável, que por sua vez envolve o reconhecimento e o desejo de repetir a experiência de ambientes, objetos, aromas, pessoas, alimentos e sensações que já nos são familiares.

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Seriam todas as tradições saudáveis?

Apesar de, ao reproduzirmos certas situações, trazermos conforto para o cérebro, isso significa que, necessariamente, estamos sempre tomando decisões saudáveis e apropriadas? A relação dos costumes e culturas com a alimentação é intrínseca e profundamente arraigada: associa-se o alimento ao contexto, à festa, ao almoço de família no domingo, ao churrasco, ao bolo da avó, ao happy hour com os amigos, e por aí vai. Porém, por mais que essas ocasiões façam parte do “porto seguro” de uma pessoa, um alimento vazio em nutrientes e potencialmente nocivo à saúde não deixa de ter essas características só porque está inserido nesta vivência confortável e familiar. São situações complexas em que uma coisa não exclui a outra.

Por outro lado, uma pessoa metabolicamente saudável (e sem nenhum tipo de intolerância alimentar) não teria, em tese, maiores problemas com esses alimentos se os consome esporadicamente. Há situações, inclusive, em que o desconforto social criado (não é incomum a pessoa ser de imediato massacrada por familiares ou amigos que, por algum motivo, se sentem profundamente ofendidos por verem alguém fazendo escolhas diferentes das deles) não vale a pena, e há quem defenda que o benefício psicológico do alimento pode superar o dano fisiológico que este possa trazer. Pesar esses fatores é extremamente individual, e quem toma essa decisão deve saber o que está fazendo. Na verdade, há muitas pessoas metabolicamente doentes que seguem tomando essas decisões e ainda assim, teoricamente, devem (ou deveriam) saber o que estão fazendo.

O que me parece importante observar é: uma dose ÚNICA de açúcar, por exemplo, dificilmente levará o indivíduo a um agravo agudo de saúde e, em uma pessoa saudável (vamos continuar pensando neste conceito de maneira bem simplificada), provavelmente não vai trazer maiores problemas. Porém, quando estamos falando de um hábito, a coisa muda de figura. O que dizer de mil doses de açúcar? Dez mil doses? Já é sabido que é a contribuição do açúcar para doenças metabólicas ocorre a longo prazo. E começa a se configurar um problema quando, na grande maioria das vezes, o que rege o comportamento das pessoas é a busca pelo prazer imediato enquanto o planejamento para o longo prazo acaba parecendo excesso de zelo, privação desnecessária e, muitas vezes, certeza de polêmicas em reuniões de família e amigos. E não raro estamos falando de pessoas com um nível de stress físico e mental muito alto, cujo contexto atual pode ser até mesmo incompatível com mudanças estruturais em desencadeadores de sensações de recompensa tão arraigadas em nossa neuroquímica. No entanto, mais uma vez, uma coisa não exclui a outra. Produtos alimentícios desprovidos de nutrientes, lotados de toxinas e com propriedades viciantes sempre terão essas características (apesar dos “atenuantes” mencionados), não importa o motivo, justificativa ou desculpa de quem os consome.

Isto posto, pergunto: porque é que o açúcar, nulo em micronutrientes e potencialmente nocivo à saúde (basta combinar dose, frequência, tempo e fatores individuais predisponentes), de acordo com inúmeras evidências científicas, ainda é condição indispensável (pelo menos na concepção de uma grande parcela das pessoas) a um encontro social? Bem, há várias explicações. Por vários motivos, acabou que virou tradição. A recompensa dopaminérgica que o açúcar traz, muitas vezes interpretada como “alegria”, acabou ficando associada a momentos de reuniões de amigos, aniversários das crianças, sobremesas ou um “mimo” que uma avó resolve oferecer aos netos, muitas vezes sem data comemorativa ou ocasião especial. Soma-se a esta explicação o fato de que a produção dessas evidências aumentou muito apenas recentemente, além de terem sido escondidas ou ignoradas muitas das evidências produzidas antigamente (sobre lobby e produção científica enviesada e contaminada por ideologias, há bastante material nesta postagem). Além disso, basta olhar para apenas duas décadas atrás e constatar que a disponibilidade de refrigerantes e demais produtos industrializados lotados de açúcar e trigo era consideravelmente menor. Lembro que, na minha infância, refrigerante era algo que se consumia apenas em finais de semana. Hoje é possível consumir uma dose a cada refeição e, se quisermos, entre as refeições também. Como mostra o Dr. Robert Lustig, médico endocrinologista americano, em sua famosa palestra “Sugar, the Bitter Truth, o consumo desses produtos, em termos de frequência e quantidade, aumentou de maneira colossal nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que surgiu uma epidemia mundial de síndrome metabólica, que engloba obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão, dentre várias outras doenças. Também é bom lembrar que desenvolveu-se toda uma engenharia, muito utilizada pela indústria alimentícia, especializada em tornar seu produto artificialmente hiperpalatável, o que faz com que o indivíduo tenha somente aquela artificial explosão de sabor como referência de uma experiência alimentícia satisfatória. O próprio conceito de escolha livre pode ser questionado, se considerarmos a influência que o inconsciente exerce sobre escolhas alimentares frente a um contexto de stress, falta de tempo, privação de sono e pressão social. E, como já citado, a disponibilidade, o acesso e a conveniência desses produtos alimentícios aumentou muito nas últimas décadas.

Aí chegamos a outra questão: uma vez posto que o uso contínuo de determinada substância pode colocar em risco a saúde de uma pessoa por vários mecanismos (1; 2; 3; 4; 5; 6; 7), quais seriam as soluções?

Em termos de saúde pública, o Dr. Lustig propõe que o açúcar seja sobretaxado da mesma maneira que o álcool, uma vez que suas propriedades não sejam tão diferentes entre si e que muitos efeitos do uso crônico de ambos se sobrepõem. O impacto sobre o orçamento do sistema de saúde seria imensamente diminuído, se considerarmos as cifras astronômicas envolvidas no tratamento de doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão. Outro exemplo é um relatório do Fórum Nacional de Obesidade do Reino Unido, publicado em 2016, que propõe que o açúcar seja ressignificado como um condimento, um tempero exótico, algo a ser utilizado apenas esporadicamente e em pequenas quantidades, e não com o protagonismo que acabou adquirindo.

Individualmente, penso que um pouco de respeito a escolhas individuais por parte de amigos e familiares também não seja má ideia. Parece que tudo o que é diferente tende a incomodar e, de alguma forma, não compartilhar do mesmo hábito alimentar desperta reações das mais imprevisíveis nas pessoas, por mais nocivo que um alimento sabidamente seja (certamente há também um componente de falta de informação e também MUITA confusão sobre o assunto – alguns links já sugeridos acima explicam um pouco como toda essa confusão se configura). É urgente que as pessoas entendam que a opção por limitar ou eliminar o açúcar faz parte de uma decisão elaborada, baseada em evidências e que, ainda que minoritária, deve ser respeitada. Talvez o poder de escolha dessas pessoas, conforme o que foi discutido acima, também não esteja muito bem preservado, o que provavelmente contribui para que resistam ferozmente à ideia de qualquer recusa, mesmo que concretizada em outra pessoa e não em si mesmas.

Há diversos outros hábitos deletérios que as pessoas, mesmo sabendo disso, continuam a praticar. O ser humano é complexo e contraditório em muitas de suas ações, e isso permeia inúmeros aspectos das decisões que qualquer indivíduo toma a todo momento. E o açúcar, como não é difícil perceber, faz parte da tradição alimentar e, talvez por isso, além de muitos outros motivos, há uma complicada resistência ao simples ato de ADMITIR que estamos falando de uma substância desprovida de nutrientes e com potencial tóxico, a depender da combinação de fatores já mencionados. A liberdade para usar uma substância ou não e as escolhas individuais são tópicos que pertencem a outra discussão. É essa LEGITIMAÇÃO do uso de um alimento potencialmente perigoso de maneira IRRESTRITA (sob pena de você ser considerado louco, bitolado e ortoréxico caso não concorde) que me incomoda.

No século XXI, diante do acúmulo de um vasto corpo de literatura científica, é espantoso que profissionais de saúde ainda sejam tão resistentes, o que parece ser muito mais relacionado a opiniões ou sentimentos e relações pessoais com esses alimentos e muito menos a evidências. Estas, independentes de qualquer opinião ou preferência pessoal, já apontam para o risco do uso dessas substâncias há muito tempo.

Mantenhamos o açúcar como exemplo para os fins do próprio texto, mas o mesmo vale, por exemplo, para o trigo: tão tradicional quanto e, na imensa maioria das vezes nos tempos atuais, hibridizado com outras gramíneas – e, portanto e não apenas por isso, muito diferente do trigo consumido por inúmeras gerações anteriores – e de baixíssima densidade nutricional, além de riquíssimo em proteínas imunogênicas e alergênicas, excelentes para aumentar a permeabilidade intestinal e contribuir para transformar o indivíduo em uma bomba inflamatória pronta para explodir em uma multiplicidade de manifestações, tipicamente onde já há alguma vulnerabilidade de base, determinada por fatores genéticos, dentre outros.

A tradição como justificativa para não mudar um estilo de vida deletério

Eu concordo que, conforme já exposto, para uma pessoa metabolicamente saudável, “sair da linha” em uma ocasião esporádica pode ser até benéfico para o aspecto psicológico, e assumir a responsabilidade pelas consequências dessa decisão é algo que fica a cargo do indivíduo. O mundo não é do jeito que a gente quer e temos que lidar com as situações com as ferramentas que dispomos. O que me parece inaceitável, no entanto, é o fato de certos profissionais de saúde fazerem declarações como “você NÃO TEM que se preocupar com sair da linha porque o almoço de família é indispensável e é doentio se privar de situações sociais por conta da alimentação”. Entendo o ponto e até já vi casos em que este aspecto rotulado como “doentio” pode ser exacerbado, caso haja uma pessoa REALMENTE determinada a não ter nenhuma flexibilidade no seu estilo alimentar, excluindo casos de intolerância alimentar ou outro motivo de saúde específico. Não é comum, mas às vezes acontece. Porém, em se tratando de um profissional da área da saúde, não é um tanto quanto irresponsável, caso o receptor dessa mensagem seja metabolicamente doente e muito provavelmente se prejudicaria com a “escorregada”, dizer que uma situação social autoriza automaticamente liberdade irrestrita para essas substâncias?

Mais uma vez, tradições são o que são e trazem consigo o bom e o ruim juntos. Vivemos em meio a elas, assim como vivemos em meio à fumaça de automóveis e não é simples fazer o controle das emissões de todos os veículos, ainda que comprovadamente causem danos à saúde das pessoas ao redor. Mas alguém que trabalha na área da saúde usar a tradição como desculpa para não se repensar um estilo de vida potencialmente danoso, especialmente no caso de quem já tenha alguma disfunção metabólica instalada, chega a ser, na minha opinião, criminoso.

Um caso clássico que me ocorre: uma mulher de idade já avançada, acostumada a fazer seus bolos e doces, vai ao médico e ele lhe diz que ela está em risco de desenvolver diabetes tipo 2. Uma vez que esta doença seja definida pela CID como ‘intolerância à glicose’, suponhamos que o médico lhe diga que seria bom diminuir seu consumo de açúcar. Quando seus familiares, vizinhos e pessoas próximas comentam sobre a recomendação, não demora muito para alguém dizer: “coitada, mas ela sempre fez isso! Seria uma crueldade tirar isso dela nesta altura da vida…” Bem, a isso respondo que esta senhora, seguindo as tradições com as quais convivia desde que nasceu, comia ovos, e uma recomendação equivocada (ainda que provavelmente bem-intencionada) de algum médico pelo qual ela passou impôs que ela comesse, no máximo, um ovo por semana e, certamente com muita tristeza, essa senhora cumpriu esta recomendação. E uma tradição que NUNCA foi comprovada por evidências sólidas como prejudicial e que fornecia, além de prazer e saciedade, incontáveis nutrientes, foi desestimulada. Pergunto então: porque quando se trata de açúcar e trigo, à luz dos conhecimentos atualizados e mais sofisticados de hoje, não deveríamos fazer o mesmo, retornando esta senhora a um caminho muito mais saudável? Não foi também desconfortável para ela reduzir drasticamente o seu tradicional consumo de ovos?

Cigarros foram muito tradicionais até meados do século passado. Meninos entre 10 e 20 anos de idade eram naturalmente iniciados no hábito, por que esse era o costume, essa era a cultura. A indústria do tabaco (assim como a indústria do açúcar tem feito até os dias de hoje: 8; 9; 10; 11) ocultou até quando pôde a (hoje óbvia) relação causal do seu produto com alta mortalidade e incontáveis problemas de saúde, mais notadamente câncer de pulmão e de outros órgãos.

Meu avô materno fumou dos 14 aos 50 anos. Morreu aos 66, por um tumor cerebral que evoluiu de maneira fulminante e deu cabo de sua vida 4 meses após o diagnóstico.

Minhas duas avós viviam tradicionalmente. Cresceram no sítio, comendo carnes, ovos e outros alimentos preparados na banha de porco e na manteiga. Depois, chegaram os óleos vegetais e, com base em evidências fracas e enviesadas, a condenação da gordura saturada. Apesar de seus costumes tradicionais, minhas avós seguiram fielmente a recomendação vigente e os conselhos de seus médicos. Fugiram da gordura saturada e reduziram o consumo de carnes e ovos. Passaram a cozinhar com óleo vegetal e trocaram a manteiga por margarina para baixar o tão temido LDL. Tomaram estatinas como prevenção primária ao risco cardiovascular (nenhuma das duas tinha níveis estratosféricos de colesterol), passaram a comer de 3 em 3 horas e a comprar vários produtos industrializados light e diet. Açúcar e trigo? Pouquíssimas ou nenhuma palavra contra. No máximo, o médico de um lado e o resto das pessoas próximas de outro. Afinal, essas substâncias “trazem felicidade” (o açúcar, que vicia por gerar picos de dopamina no núcleo accumbens, o centro de prazer do cérebro, o mesmo mecanismo de prazer gerado pela cocaína; e o trigo, que vicia por meio da ativação de receptores opioides, o mesmo mecanismo de prazer gerado pela heroína) e “seria uma judiação tirar isso delas”.

Uma das minhas avós faleceu em 2015, vitimada por um AVC. A outra encontra-se, neste momento, institucionalizada, acometida pela doença de Alzheimer. Ambas viveram segundo suas (modificáveis) tradições.

 

Autor:

Maurício Del Bianco

 

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