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Muito além da fome

Joana Korevaar

O que o cérebro percebe como sabor é uma fusão dos efeitos de três sentidos: paladar, tato e olfato. A visão, no entanto, também tem papel importante nessa experiência sensorial.

A percepção do sabor depende de células sensoriais, localizadas junto às papilas gustativas, que nos permitem distinguir qualidades como temperatura e intensidade do tempero. Por exemplo, quando colocamos os alimentos na boca, há ativação de células localizadas no final da passagem nasal. Elas coletam informações que interagem com as células sensoriais da língua por meio de um processo chamado orientação olfativa.

Embora a visão aparentemente represente um papel menos direto que o cheiro na percepção do sabor, ela é o sentido mais usado para identificar os alimentos e, portanto, afeta as expectativas em relação à comida. A visão de uma taça de sorvete ou uma pizza ativa centros neurais superiores, como o sistema de gratificação e recompensa da dopamina.

Ao longo da evolução, nosso cérebro aprendeu a identificar alimentos com maior valor energético, pois eram garantia de mais tempo sem ter que procurar comida, atribuindo-lhes mais sabor. Não é de hoje que os cientistas pesquisam a participação do sentido da visão na percepção do que é ou não saboroso. Um estudo publicado no Journal of Experimental Social Psychology sugere, por exemplo, que estimular o cérebro com imagens de alimentos saudáveis nos ajuda a percebê-los como mais saborosos. Pesquisadores da Universidade Utrecht, na Holanda, mostraram a voluntários fotos de pratos considerados mais leves e menos gordurosos, como saladas e frutas frescas. Em seguida, convidaram os participantes e um grupo de controle, que não viu as fotografias, a provarem esses alimentos. Os que olharam para as imagens antes de comer usaram mais adjetivos como “tentadora” e “deliciosa” para avaliar a comida.

Estudar a influência da visão sobre a percepção de sabor pode ajudar a criar medidas preventivas para problemas relacionados à alimentação, como a obesidade, desvendando mecanismos envolvidos na necessidade e no desejo de consumir alimentos mais calóricos.

 

A consistência dos alimentos importa

Por que você não pode parar de comer manteiga de amendoim ou resistir aos alimentos leves e pastosos? Por que os molhos tornam nossos alimentos tão irresistíveis? Por que não podemos parar em uma colher de sorvete, mas acabar comendo o pote inteiro? O que deliciosos molhos, cremes, queijo derretido, algodão-doce, sorvetes e manteigas pastosas de amendoim têm em comum e mais importante, por que você não pode parar de comê-los? Antes que a insulina aumente, os hormônios entram em ação ou os biomarcadores mudam, o que atrapalha seu cérebro antes que seu corpo tenha a chance de responder à comida que acabou de comer? Da próxima vez que você estiver comendo uma comida e pensando: “Isso é tão cremoso, saboroso e delicioso”, você deve ficar de olho na quantidade.

Há um forte indício de que esse mecanismo desempenha um papel importante no consumo excessivo de alimentos.

 

Destruidor de dietas: A perda do controle da densidade calórica

Controlar a sensação na boca é o primeiro passo para um item alimentar aumentar a carga calórica de um alimento sem que o corpo perceba. Quando um produto alimentar derrete facilmente na boca ou se liquidifica, o cérebro acha que não foram ingeridas calorias. É por isso que você pode continuar comendo alimentos pastosos, líquidos e derretidos por um longo tempo antes de alcançar a saciedade naquele item alimentar. Mesmo alimentos sólidos, como cheetos, têm esse efeito de derretimento à medida que se dissolvem na boca e levam ao consumo excessivo sem que o consumidor perceba.

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Mas…

Você pode pensar que os alimentos feitos em casa podem estar seguros de tal super estímulo, mas esse não é o caso.

Você JÁ observou a diferença entre consumir frutas e as mesmas frutas na forma de um suco ou smoothie? É muito mais fácil consumir o último devido a um efeito similar.

Os mesmos princípios podem ser aplicados a alimentos como molhos açucarados e gordurosos, manteigas e muitos outros alimentos que vêm dos livros de receita em sua casa. Estes molhos e misturas podem adicionar os alimentos calóricos de forma sorrateira e facilmente levar ao consumo excessivo (mesmo possível em dietas com baixo teor de carboidratos, cetogênicas e carnívoras!).

🔘 Os seres humanos não evoluíram com tecnologias que permitiam alimentos com tal consistência, carga calórica e textura ao mesmo tempo.

Combine isso com estimuladores extremos de paladar, marketing visual e auditivo de massa de tais alimentos e o descontrole da saciedade (por exemplo, você “poderia” eventualmente parar de comer pizza, não importa quão delicioso seja, se seguisse o limite da saciedade) através do “efeito buffet”, você terá a desastrosa tempestade de consumo excessivo e obesidade.

Qual seria a verdadeira justificativa para alterar conscientemente a consistência dos alimentos??? Se a resposta estiver na praticidade, o problema é MUITO MAIOR do que fome, calorias e estímulos sensoriais!

Bem-vindo ao mundo moderno em que substituímos a escassez de alimentos por obesos desnutridos!

 

Coma comida e beba líquidos, pelo menos até que tenha consciência e controle do que ingere. 😉

 

Truques temporários

Um dos pequenos ajustes que poderiam ajudar nisso é garantir que os alimentos não sejam misturados a uma consistência ultra-suave que poderia levar a enganar o cérebro.

Cortar molhos pesados ultra pastosos e ultraprocessados, queijos/manteigas e bebidas densas em calorias (sim, o álcool também tem calorias… junto com o café adulterado – bulletproof) é outra solução. Como regra geral, se houver alimentos que são “líquidos” e “pastosos”, em alternativas com valor calórico zero ou extremamente baixo podem ser boas opções em fases de aquisição de controle, já que imitam o mesmo impacto que temos com essa consistência alimentar. Para algumas pessoas pode ser uma ajuda, não a solução.

 

Uma outra visão

O consumo excessivo de alimentos é uma realidade que pode ser repensada.

O processamento de alimentos faz parte da cultura humana, pois o homem utilizou ferramentas para domesticar e utilizar a nutrição de fontes que não eram viáveis durante os estágios iniciais da evolução humana. No entanto, a indústria de alimentos está lucrando com os impulsos humanos e comportamentos subconscientes, algo que muitos de nós não estamos conscientes.

Não temos como fugir de tudo, não há como voltar 100% ao básico. Há como reservar para a alimentação e sua fundamental importância um momento de reflexão ANTES da ingestão. O equilíbrio pode estar na consciência plena dos sabores e estímulos, bem como viver em paz com tudo isso e de forma harmônica.

O stress e a pressa moderna são ferramentas destruidoras do pensar reflexivo. Seu momento de cuidar da alimentação (planejamento, compras, armazenamento, preparação e o “comer”) deveria ser tão sagrado quanto hábitos simples de higiene pessoal.

Em qualquer guerra deve-se investir em conhecer seu oponente e adotar estratégias bem elaboradas para derrotá-lo, inclusive na guerra contra a obesidade.

 

Autora:

Joana Korevaar

   

 

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