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Medir cetonas no sangue: qual o objetivo?

Pedro Schütz

No mês de agosto de 2017, o amigo Hilton, do Paleodiário (www.paleodiario.com.br) e colaborador deste site, fez um experimento em si próprio, um período de jejum intermitente intercalado com realimentação sem carboidratos. O protocolo foi de 120/48 hs durante 4 semanas. Na prática, isso se traduz em não comer nada de segunda a sexta-feira e comer no sábado e domingo. O objetivo foi testar “o seu limite”, segundo o Hilton.

O Hilton comprou um glicosímetro para aferir sua glicose e pretendia medir cetose nutricional também.

Na época escrevi nos comentários do seu blog o motivo pela qual achava desnecessária essa verificação, principalmente porque o Hilton APENAS testava seus limites e, claro, buscava uma mudança na balança e composição corporal. O Hilton NÃO desejava a cetose por motivos de epilepsia, Alzheimer, Parkinson ou alguma outra doença.

Gostaria de deixar aqui para os leitores do Saúde Ancestral então, um resumo daquela explicação que fiz:

1 – O custo das tiras para medir a cetose no sangue é absurdamente alto. Imagina uma pessoa medindo isso por vários dias ou meses. Certamente, se todo esse dinheiro, tempo e esforço para testar as cetonas fosse direcionado a aplicá-lo para escolhas de alimentos adequados, por exemplo, bem como um programa estruturado de treinamento de força, teríamos muito mais “retorno”.

2 – Em outra forma de medição, via urina, as cetonas são muitas vezes não detectáveis pós-cetoadaptação, resultando em pessoas que pensam que não estão mais em cetose, quando na verdade elas estão totalmente adaptadas, “derramando” menos cetonas, ou seja, estão utilizando as mesmas como fonte de energia. Além disso, os níveis de hidratação são um fator de confusão no teste de cetonas na urina, que podem resultar em um “falso positivo” e um “falso negativo”. Além disso, as cetonas da urina são aquelas desperdiçadas – aquelas que estão sendo excretadas do corpo e não aquelas que são ativamente utilizadas. Essas cetonas não são e não foram usadas pelo cérebro. Como verificar se o corpo está usando cetonas como fonte de energia se as únicas cetonas testadas não estão sendo utilizadas como fonte de energia?

3 – A outra forma de medir cetonas é pela respiração, que pelo que sei, só poderá ser feito por um aparelho (Ketonix) que fica na faixa de $180~200 dólares! Por Michel Lundel, o inventor do Ketonix:

“As cetonas do sangue e as cetonas da respiração não se correlacionam bem um com o outro. Eu confirmei isto testando sangue e respirando lado a lado.

Eu tive cetonas altas no sangue, mas cetonas baixas na respiração. EM outro momento, eu tive cetonas altas na respiração, mas baixas cetonas no sangue.”

Então…

4 – Interpretação ERRADA dos dados:

a) As cetonas no sangue tendem a ser mais baixas pela manhã do que à noite. Então, o que acontece, muitas pessoas testam à noite e têm cetonas altas, aí quando testam pela manhã, encontram níveis de cetonas mais baixos, aí acham que comeram muita proteína ou carboidratos no jantar do dia anterior. Sabemos que isso pode não ser verdade. Lembrando que pela manhã o cortisol é maior e a gliconeogênese acontece!

b) Quando as cetonas no sangue estão altas, pode significar que as mesmas estão se acumulando no sangue e não sendo usadas. Qual o objetivo de ter “altos níveis de cetona” se eles não estão sendo usados de forma eficiente?

c) Muitas pessoas cetoadaptadas a longo prazo observam baixas cetonas no sangue, mas ALTAS na respiração. Talvez este seja um sinal de adaptação em curso ainda, mas não podemos dizer com certeza porque não há dados sobre isso. Uma hipótese é que baixas cetonas no sangue com cetonas altas na respiração são meramente indicativas do metabolismo eficiente destas. Observe, se alguém estava apenas testando no sangue, ela pode pensar que “não está mais em cetose”, apesar de altos níveis de cetonas por meio do Ketonix indicar alto uso de gordura para combustível.

d) Os resultados do teste no sangue de cetonas indicam que o número muda para cima e para baixo substancialmente. É difícil encontrar algo concreto quando o número se move tanto. Isso leva à confusão e à necessidade de testar uma série de vezes para descobrir o que está acontecendo. Como já coloquei anteriormente, o teste de cetonas de sangue é caro… e tem de estar toda hora “furando” dedo…

5 – A queima de ácidos graxos do tecido adiposo é o principal benefício de uma dieta cetogênica. Em uma dieta cetogênica, parte da demanda energética do cérebro é alimentada por cetonas, mas o coração, os músculos, etc. são alimentados por ácidos graxos. A maior parte da energia que utilizamos em repouso e no esforço sub-máximo em uma dieta cetogênica é o ácido “gordo”, e não as cetonas.

Citando o Dr. Ron Rosedale sobre “perseguindo cetonas”:

“Eu não quero que as pessoas tenham a mentalidade de que são as cetonas que são o benefício da dieta. Elas são um efeito ‘colateral’ benéfico, mas o principal benefício é que você está queimando ácidos gordurosos da gordura corporal, e não glicose. E é realmente aí que você está recebendo o benefício… Portanto, as cetonas são ótimas, mas o termo dieta cetogênica, indicando que a dieta é tão boa porque você está gerando todas essas cetonas, é uma má interpretação do benefício. O principal benefício é que você está queimando ácidos gordurosos e isso TAMBÉM acontece numa dieta LCHF NÃO-CETOGÊNICA. Claro, como efeito colateral da queima de ácidos graxos, você pode estar produzindo cetonas para que seu corpo também possa queimar.

6 – O excesso de ingestão de gordura objetivando cetose lhe dará cetonas mais altas, mas a insulina irá responder para manter essas cetonas sob controle e as altas quantidades de gordura irão ao armazenamento. As pessoas podem ter leituras mais baixas de cetonas quando ingerem mais proteína, mas é mais importante comer uma quantidade adequada de proteína para preservar a massa corporal magra do que ter níveis altos de cetonas.

Em resumo, não se preocupe com a medida de cetonas. Existem poucos motivos para medi-las (a exceção são as questões especificamente terapêuticas) depois de simplesmente entender que a redução dos carboidratos (assumindo estilo “comida de verdade LCHF”) e/ou o Jejum Intermitente, causa a lipoadaptação (e suas positivas consequências) e eventualmente produção e uso de cetonas.

 

Autor:

Pedro Schütz – Ciência Schutz

   

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