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Os riscos da Sibutramina

Estevão Borges Jorge

“Mas doutor, o senhor não vai passar nenhum remedinho para me ajudar com essa minha compulsão? Esse meu apetite desenfreado?”

Trabalhando com emagrecimento, frequentemente sou questionado pelos meus pacientes sobre a prescrição de supressores de apetite. O motivo é que a introdução desses fármacos, são para vida toda. Ou seja, medicações que após início do tratamento, devem ser continuadas mesmo quando se consegue atingir um peso alvo. E muitas vezes associações dessas medicações são necessárias. Dois ou três fármacos juntos, pasmem.

O estudo “Sibutramine Cardiovascular Outcomes (SCOUT)” publicado no NEJM em 2010, avaliou os efeitos a longo prazo do tratamento com sibutramina, combinado com dieta e exercício, sobre as taxas de eventos cardiovasculares, e morte cardiovascular entre indivíduos com alto risco cardiovascular.

Foram selecionados cerca de 10.000 indivíduos acima de 55 anos com doença cardiovascular prévia, diabetes ou ambas, e os desfechos primários analisados foram: infarto do miocárdio não fatal, acidente vascular cerebral não fatal, ressuscitação após parada cardíaca ou morte de causa cardiovascular.

Todos os sujeitos receberam sibutramina na dose de 10 mg/dia por 6 semanas, período chamado de “lead-in”, logo após foram randomizados em dois grupos: SIBUTRAMINA (intervenção) x PLACEBO (controle). Todos os indivíduos orientados a fazer dieta e atividade física, com objetivo de ter um déficit calórico de cerca de 600 cal/dia. A dose poderia ser ajustada até 15 mg/dia.

Resultado: O risco desfecho primário foi de 11,4% no grupo da sibutramina em comparação com 10,0% no grupo placebo. As taxas de infarto do miocárdio não fatal e acidente vascular cerebral não fatal foram 4,1% e 2,6% no grupo da sibutramina; e 3,2% e 1,9% no grupo placebo, respectivamente. As taxas de morte cardiovascular e morte por todas causas não foram aumentadas. Outros achados nesse estudo foi aumento de pressão arterial sistólica e diastólica e aumento do pulso arterial, ou seja, frequência cardíaca.

O estudo desenhado para provar ausência de malefício da Sibutramina, fundado pela própria indústria farmacêutica, a ABBOTT que produz o Reductil (nome de marca da Sibutramina), concluiu portanto que os indivíduos com condições cardiovasculares preexistentes que estavam recebendo tratamento de sibutramina a longo prazo, apresentaram maior risco de infarto do miocárdio não fatal e acidente vascular cerebral não fatal, mas não de morte cardiovascular ou morte por todas as causas. Ou seja, aumenta o risco cardiovascular, em quem tem doença prévia e provavelmente em quem não tem também. A escolha desse grupo de pacientes para ser arrolado ao estudo, ocorre devido a maior chance de ter desfechos positivos. Mas provavelmente, pelo princípio da complacência, podemos extrapolar esse resultado para outros grupos de indivíduos.

Mas quanto esses indivíduos emagreceram no período que durou o estudo!?!?

A duração media do tratamento foi de 3,4 anos. A perda média de peso durante o período de “lead-in” (primeiras 6 semanas) foi de 2,6 kg; e após a randomização, os sujeitos no grupo da sibutramina alcançaram e mantiveram maior redução de peso (média, 1,7 kg) ou seja um total de apenas 4,3 kg em 3,4 anos de uso da Sibutramina. Sendo a maior parte (2,6 kg) nas primeiras 6 semanas. Ficaram mais de 3 anos tomando uma medicação para perder cerca de 1,7 kg após o período “lead-in”.

Uma dieta bem formulada é a principal intervenção para o emagrecimento, controle de apetite e compulsão. Muito mais eficaz que medicações que normalmente são utilizadas para esse fim. Quando paramos de comer açúcares, farinhas refinadas e alimentos industrializados, paramos de estimular o apetite de maneira crônica, como fazem esses alimentos.

 

 

Referência:

1-) Effect of Sibutramine on Cardiovascular Outcomes in Overweight and Obese Subjects

(DOI:10.1056/NEJMoa1003114)

http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1003114

 

Autor:

Dr. Estevão Borges Jorge

 

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