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Síndrome Metabólica e Low Carb

Estevão Borges Jorge

Uma síndrome não é uma doença em si. Mas um conjunto de sinais clínicos e fisiológicos que caracterizam um estado patológico. A síndrome metabólica, descrita pelos cientistas desde a década de 20, é definida por sinais clínicos como obesidade abdominal, hipertensão arterial e alteração nos exames de colesterol e glicose no sangue. Associados, eles aumentam consideravelmente o risco de diabetes tipo II e acidentes cardiovasculares (infarto e AVC).

Segundo a Federação Internacional de Diabetes, uma pessoa é considerada portadora de Síndrome Metabólica quando sua circunferência abdominal ultrapassa 94 cm para os homens, e 80 cm para as mulheres, e quando apresenta outros dois dos sinais clínicos a seguir:

-Hipertensão arterial e/ou em uso de medicação anti-hipertensiva

-HDL < 40 mg/dl

-Triglicerídeos > 150 mg/dl

-glicemia de jejum > 100 mg/dl

Frequentemente um quadro como esse é causado por resistência à insulina – hormônio que regula as taxas de açúcar ao absorver a glicose do sangue e estoca-la no fígado sob a forma de glicogênio ou utilizar como forma de energia. Estima-se que a prevalência atual da Síndrome Metabólica nos Estados Unidos esteja acima de 25%, ou seja, um em cada quatro indivíduos são portadores dessa síndrome.

A Síndrome Metabólica não apenas está associada a maior risco de doença cardiovascular, mas frequentemente se apresenta com múltiplos distúrbios hormonais e metabólicos, como diabetes tipo II, aumento de ácido úrico, esteatose hepática não alcoólica (gordura no fígado), disfunção erétil (nos homens, pela baixa de testosterona), síndrome dos ovários policísticos (nas mulheres), acantose nigricans (lesões escuras na pele em região de dobras) além da obesidade e todas as suas implicações, como baixa autoestima e diminuição da funcionalidade corporal e músculo esquelética.

O fato de secretar sempre mais insulina, que é um hormônio, diminui a qualidade e eficiência de sua ação em seus receptores, precisando de cada vez mais insulina para se obter a mesma ação, levando o pâncreas à exaustão. O controle de taxas normais de glicose no sangue, tanto em jejum como nos períodos pós refeições, fica insustentável e instala-se a temível resistência à insulina.

Se você for diagnosticado com Síndrome Metabólica, como pode reverter esse grande problema?!

A má alimentação, típica da dieta ocidental padrão, com excesso de carboidratos refinados como açúcares e farinhas, presentes em quantidades industriais em alimentos processados, promovem o aumento do apetite, levam à resistência à insulina, e essa é a principal causa da Síndrome Metabólica. Basta, então, adaptar um novo estilo de vida para reverter não apenas a Síndrome Metabólica, mas também obesidade e diabetes. O foco deve ser dieta, atividade física programada, um sono reparador, manejo das situações de stress e também checar com seu médico como anda sua saúde hormonal e metabólica.

Como a dieta Low Carb atua revertendo a Síndrome Metabólica?

Como o principal macronutriente que dispara a insulina são os carboidratos, uma dieta com restrição de carboidratos, bem formulada, Low Carb ou Cetogênica reverte não apenas todos os parâmetros da Síndrome Metabólica, mas também tem capacidade de modular a orquestra dos demais hormônios e peptídeos intestinais responsáveis pelo equilíbrio de fome e saciedade, como grelina, leptina e colecistoquinina (CCK), reduzindo o apetite e remanejando a compulsão desenfreada por doces.

Os cinco indicadores que são fundamentais para o diagnóstico da Síndrome Metabólica são precisamente os sinais e marcadores bioquímicos no sangue que respondem a restrição de carboidrato na dieta. A restrição de carboidratos (CHO) não é apenas uma das várias estratégias eficientes de levar ao emagrecimento, mas mesmo na ausência de perda de peso, ou em comparação com alternativas de dietas de baixo teor de gordura, a restrição de CHO é efetiva para reverter os cinco critérios da Síndrome Metabólica. Além disso, sabemos há muito tempo que dietas baixas em gordura e altas em CHO, como normalmente preconizados por profissionais de saúde e guias alimentares, levam a aumento de triglicerídeos, redução de HDL e, na ausência de perda de peso, podem piorar o controle glicêmico. Assim, enquanto existem inúmeras estratégias para perda de peso, um indivíduo com IMC alto, obesidade abdominal e triglicerídeos elevados provavelmente se beneficiará muito mais de uma dieta que reduz a ingestão de CHO.

Precisamos enfatizar que a Síndrome Metabólica não é uma doença, mas uma coleção de marcadores associados a desfechos negativos. O temível LDL, conhecido como “colesterol ruim”, não faz parte dos cinco critérios da Síndrome Metabólica, pois sabemos que esse é um péssimo marcador de risco cardiovascular. O médico deve decidir se o LDL elevado, ou outros fatores de risco, são mais importantes em cada caso individualmente. Hoje temos marcadores, que podem ser dosados em exames simples de sangue, muito mais precisos para avaliar o tamanho das partículas de LDL. A dosagem de Apolipoproteína B e A1 nos fornece uma interpretação muito mais precisa sobre se esse LDL são partículas pequenas e densas, associadas com aterosclerose e risco de doença cardiovascular, ou se são partículas grandes e “fofas”, que não representam riscos.

Agora que já estabelecemos que a restrição de CHO melhora a Síndrome Metabólica, precisamos deixar claro que isso pode ser independente da perda de peso. A perda de peso também melhora a Síndrome Metabólica e, é claro, perda de peso também ocorre com dietas com baixo teor de gordura, mas precisamos considerar qual estratégia é a mais eficaz. Temos vários estudos na literatura demonstrando que as dietas com restrição de CHO geralmente promovem melhor resultado para perda de peso do que dietas com baixo teor de gordura em ad lib. comparações, ou seja, deixando os indivíduos comerem à vontade, sem restrições de calorias ou quantidades.

Resumindo, os cinco sinais e sintomas da definição de Síndrome Metabólica são justamente os que melhor respondem a uma dieta de baixo carboidratos ou cetogênica. A glicemia de jejum e triglicerídeos elevados caem dramaticamente logo nos primeiros dias e/ou semanas, o HDL vai se elevando ao longo dos meses, enquanto a pressão arterial vai diminuindo junto com o peso. Demais exames, como insulina de jejum e a relação de apolipoproteinas B/A1, também melhoram com a restrição de CHO. Considero muito importante realizar esses exames antes de iniciar uma intervenção com resultados tão amplos como ocorre na Low Carb. São dosagens de exames laboratoriais simples que nos ajudam a estimar o grau de resistência à insulina e de acometimento nesses parâmetros, e desse modo poder realizar, no futuro, comparações com o basal, de antes da intervenção. Muitos dos indivíduos acometidos pela Síndrome Metabólica devem atentar-se à necessidade de reduzir suas medicações para diabetes e hipertensão arterial. Algumas medicações para diabetes devem ser manejadas logo no primeiro dia de dieta, sob risco de hipoglicemia.

Levando em consideração que mais de 25% da população mundial se enquadra nesse diagnóstico, e os excepcionais resultados de uma dieta Low Carb nos parâmetros da Síndrome Metabólica, essa deveria ser a principal ferramenta no manejo desses indivíduos.

 

Referências:

1) A Carbohydrate-Restricted Diet Alters Gut Peptides and Adiposity Signals in Men and Women with Metabolic Syndrome

https://academic.oup.com/jn/article/137/8/1944/4664951

2) Carbohydrate restriction improves the features of Metabolic Syndrome. Metabolic Syndrome may be defined by the response to carbohydrate restriction

https://doi.org/10.1186/1743-7075-2-31

3) Carbohydrate restriction as the default treatment for type 2 diabetes and metabolic syndrome

https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/14017430802014838

4) Dietary carbohydrate restriction induces a unique metabolic state positively affecting atherogenic dyslipidemia, fatty acid partitioning, and metabolic syndrome

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0163782708000167

 

Autor:

Dr. Estevão Borges Jorge

 

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