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Gordura Visceral e Abdominoplastia

Deivis Albers

Doutor, eu tenho estômago saltado! Quero fazer uma plástica.

É muito importante entender quando uma Abdominoplastia – conhecida como plástica do abdome – está indicada e conseguirá trazer os benefícios esperados de melhora do contorno corporal e quando não está indicada.

A famosa expressão “estômago saltado”, que as pacientes relatam, é um exemplo que, em muitos casos, não está indicada a cirurgia de Abdominoplastia, pois algumas vezes, decorre do excesso de gordura visceral. Esta gordura interna fica acumulada abaixo da parede muscular, junto aos órgãos internos, chamados de vísceras (como intestino, fígado, pâncreas, epíplon, etc). Uma gordura que não melhora com cirurgia plástica.

Claro que este abaulamento da barriga pode ser causado pelo afastamento da musculatura, especificamente dos músculos retos abdominais, o que chamamos de diástase, e este problema, em geral, necessita de cirurgia para resolução.

Um ponto interessante é saber se você tem gordura visceral e como ela se forma. Para confirmar o depósito de gordura visceral, muitas vezes podemos solicitar exames de imagens (como ecografia e ressonância magnética) ou exames para avaliação de composição corporal (como aparelhos de DEXA – Dual Energy X-Ray Absorption). Entretanto, não é necessário nada disto para suspeitar que você tenha gordura visceral, visto que podemos medir a circunferência abdominal, e as mulheres que têm uma medida maior que 89 cm, geralmente apresentam gordura visceral.

Outra maneira bastante simples é verificar se você está desenvolvendo Resistência à Insulina, ou pior, Síndrome Metabólica. Na verdade, praticamente toda Síndrome Metabólica se origina pela Resistência à Insulina.

A Síndrome Metabólica é um grave problema de saúde, uma vez que aumenta a chance de doença coronariana, infarto, derrames cerebrais e vários processos inflamatórios. Ela é diagnosticada quando somamos 3 alterações metabólicas em 5 possíveis, sendo elas:

  • Diminuição do HDL colesterol
  • Aumento dos triglicerídeos
  • Aumento da pressão sanguínea
  • Diabetes
  • Aumento da circunferência abdominal

Ressalta-se que a origem comum disso tudo é a Resistência à Insulina. Vamos tentar entender isto melhor e como ela leva ao acúmulo de gordura visceral.

A Resistência à Insulina, resumidamente, origina-se quando nossas células tentam se defender do excesso de glicose. A glicose na corrente sanguínea é importante, ou seja, é a nossa forma de energia mais rápida, porém quando em excesso nos traz vários problemas, basta observar os pacientes diabéticos que não controlam bem sua glicemia (glicose no sangue) e acabam por ter problemas de visão, rins, cicatrização, amputações, etc. Não é bom deixar glicose elevada no sangue.

Assim como desenvolvemos resistência nas células da pele (chamado de bronzeamento) ao expormos cronicamente ao sol e criamos resistência nos ouvidos ao submetermos nossas células auditivas sempre a ruídos e sons muito elevados (como no caso de crianças acostumadas a usar fones de ouvidos com músicas altas), nossas células do corpo (músculos, fígado e demais) desenvolvem resistência à entrada de glicose quando expostas cronicamente a excessos ou altos níveis da mesma.

Com isto, nosso corpo, em um primeiro momento, tenta resolver essa situação aumentando a produção de insulina pelo pâncreas, pois com mais insulina, mais glicose consegue sair do sangue e entrar nas células.

Eis um teste bastante simples de ver se você está desenvolvendo Resistência à Insulina, e acumulando gordura visceral (que mais adiante explicaremos o mecanismo). Solicite ao seu médico, o exame de insulina de jejum. Se você está em jejum, a insulina deveria estar abaixo de 10. Muitos estudos sugerem ficar abaixo de 6.

Voltando à explicação, quando seu pâncreas aumenta a produção de insulina para retirar a glicose em excesso do sangue, você gera várias alterações devido a este estado de hiperinsulinemia. A insulina, além de ter esta função conhecida no corpo, faz:

  • Retenção de sódio nos rins, aumentando a retenção líquida, deixando o corpo mais inchado e aumentando a pressão sanguínea;
  • Bloqueia a enzima responsável pela lipólise, ou seja, não tem com queimar gordura;
  • Induz a formação de triglicerídeos, então produz gordura, principalmente visceral.

Perceberam? Um dos motivos que você desenvolve gordura visceral é porque sua insulina está alta. Além de inibir a queima de gordura, estimula sua produção. Mas por que está alta?

Geralmente, a causa principal é devido a nossa alimentação errada, rica em produtos industrializados e abundantes em açúcar ou amido refinado. Isso quer dizer que você produz gordura visceral porque está comendo muito carboidrato refinado e muito açúcar, que acabam entrando no sangue como glicose, e não porque está comendo gordura. O grande estimulador da produção de insulina são os carboidratos.

Agora que identificamos que sua insulina está alta e que você apresenta um abdome bastante abaulado, com a medida de cintura que ultrapassa 89 cm, existe uma grande chance de ser gordura visceral a causa deste “estômago saltado”.

Outra medida fácil de verificar se a pessoa tem Resistência à Insulina é dividir a cintura em centímetros por altura em centímetros. Se der maior de 0,5 temos boa chance de ter este problema.

Mais fidedigno ainda, para diagnosticar Resistência Insulínica, é o cálculo do HOMA-IR (Homestasis Model Assessment). Este cálculo é bastante simples, bastando ter a glicemia e a insulina de jejum. Aplique esta fórmula: Insulina jejum x glicemia de jejum / 22.5. Se ela for >3, indica Resistência Insulínica.

Então mesmo que você tenha indicação de Abdominoplastia, por apresentar flacidez de pele, o famoso “abdome em avental”, flacidez muscular, com afastamento dos músculos e gordura acumulada abaixo da pele, é muito importante saber se você tem ou não gordura visceral! Esta gordura não é removida com cirurgia plástica, e sim, com alterações de hábitos alimentares. A intervenção com melhor embasamento científico para isto é uma alimentação com baixo carboidrato, baseada em comida de verdade.

Desta forma, se você deseja realizar uma Abdominoplastia e melhorar seu contorno corporal, saiba que uma correta indicação cirúrgica para ela envolve quatro componentes:

  1. Flacidez de pele
  2. Gordura acumulada abaixo da pele
  3. Afastamento e flacidez dos músculos
  4. Gordura visceral

A cirurgia plástica é adequada para as três primeiras variáveis, já a gordura visceral você não vai conseguir eliminar com um procedimento. Por isso que uma importante questão a ser esclarecida, previamente a cirurgia, é se você tem gordura visceral ou não. Precisamos diferenciar a gordura subcutânea, que pode ser diminuída com uma lipoaspiração realizada conjuntamente com a Abdominoplastia, da gordura intra-abdominal (visceral). Esta gordura é, atualmente, considerada como uma grande produtora de vários mediadores inflamatórios e aumentam o risco para infarto, trombose, embolia, diabetes e síndrome metabólica.

Em resumo, antes de se submeter a uma cirurgia plástica, solicite ao seu médico uma investigação para avaliar se um fator responsável pelo formato de sua barriga não é a ingrata da gordura visceral. Se você tiver Síndrome Metabólica, tente tratar com uma estratégia de alimentação com menos carboidrato antes da cirurgia, assim você reduz a gordura visceral e reduz o risco cirúrgico da sua plástica abdominal.

 

Referências:

http://www.rbcp.org.br/details/993/analise-da-gordura-visceral-apos-lipectomias

http://www.metabolismjournal.com/article/S0026-0495(01)71986-5/pdf

https://journals.lww.com/plasreconsurg/Abstract/2011/09000/Prospective_Clinical_Study_Reveals_Significant.29.aspx

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0066-782X2010001100025

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29295838

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24160221

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23302544

http://www.scielo.br/pdf/rpp/v32n1/pt_0103-0582-rpp-32-01-00055.pdf

https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/108995/000949796.pdf?sequence=1

https://academic.oup.com/jcem/article/97/7/2388/2834256

http://www.diabetes.org.br/ebook/component/k2/item/36-resistencia-insulinica-sindrome-metabolica-e-risco-cardiovascular

http://www.fertstert.org/article/S0015-0282(99)00453-7/fulltext

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/4898406

https://journals.lww.com/annalsplasticsurgery/Abstract/2007/04000/Effect_of_Surgically_Removing_Subcutaneous_Fat_by.12.aspx

 

Autor:

Dr. Deivis Albers – Cirurgião Plástico

   

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