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Fiquei intolerante

Rê Calixto

Há muitos relatos de pessoas que iniciam o estilo de vida low carb ou gluten free e após aquela primeira pizza e cerveja com os amigos começam a sentir sintomas relacionados ao glúten. Muitos profissionais dizem que a restrição foi a causa da “intolerância”, será mesmo?

Primeiro, importante salientar que o termo correto é sensibilidade ao glúten. Usamos muito a redução SGNC (sensibilidade ao glúten não celíaca).

Bom, alguns componentes que formam as proteínas do glúten, a gliadina e a glutenina, não podem ser digeridas pelo intestino de qualquer ser humano, embora algumas pessoas possam tolerar com segurança seu consumo. O curso natural das proteínas não digeridas seria a eliminação pelas fezes, mas isso não ocorre com esses componentes do glúten. Estima-se que, em 15% a 42% da população, esses componentes acabam entrando na circulação sanguínea pela parede intestinal.

Inicia-se então a produção de anticorpos, pois o corpo identifica essas proteínas como invasores, causando inflamação no local onde as proteínas vazaram. Os elementos químicos liberados pela inflamação causam aumento da permeabilidade intestinal. Entramos então em síndrome do vazamento intestinal ou síndrome do intestino permeável (leaky gut, em inglês). Mesmo na ausência de anticorpos específicos (que caracterizaria a doença celíaca), o contato dessas proteínas com outros órgãos ou tecidos causa danos, por causa desse mesmo processo inflamatório, desencadeado pelo sistema imunológico inato.

O intestino tem a maior massa de células imunológicas do corpo humano, são nossas células de defesa, altamente especializadas e que são substituídas rapidamente, a cada 72 horas. Essa camada protetora maravilhosa é destruída e canibalizada quando exposta a qualquer estresse severo.  Então, se você for como a maior parte da população que apresenta maior risco de permeabilidade intestinal, e passar por um ou dois dos muitos eventos que podem causar vazamentos, o glúten não digerido inevitavelmente ultrapassará essa barreira e entrará no seu corpo pela corrente sanguínea. Junto com o glúten, o sangue absorverá outras proteínas, aditivos alimentares, toxinas, bactérias patógenas e até mesmo bactérias benéficas, que residiam na microbiota intestinal pacificamente, mas que se depositados em outros tecidos ou órgãos, causarão infecções ou reações autoimunes.

Então, já sabemos que o glúten pode ser um vilão mesmo para aquela porcentagem da população que não tem predisposição genética para a doença celíaca.

“Mas antes dessa alimentação forte, natural, sem conservantes, corantes, industrializados, cheia de verduras, legumes, gorduras boas, algumas frutas…. Eu não tinha nenhum sintoma!”

De fato, a percepção dos sintomas é diferente antes da mudança da alimentação. Há um princípio de Hans Style, chamado “estresse sem desconforto” (stress without distress, em inglês). É um mecanismo de defesa do corpo realizado pelo nosso hipotálamo.  Exemplifico esse princípio sendo o glúten o agente estressor. Quando o biscoitinho, pãozinho, macarrãozinho de letrinha foi introduzido em nossa alimentação na infância, provavelmente tivemos uma reação forte e severa (cólicas, dor, choros, diarreia, distensão abdominal, febre inexplicável…). Após a exposição contínua e prolongada a esse estressor, iniciou-se um estágio de adaptação, pois nenhum organismo é capaz de manter-se em estado de alerta por períodos muito longos de tempo. Então os sintomas iniciais diminuem ou até desaparecem.  Nos tornamos tolerantes aos sintomas. Mas, devemos ficar atentos porque o corpo entrará em exaustão (essa adaptação energética ao estressor é finita) e processos de doenças inflamatórias podem iniciar ou já estão em curso.

Essas informações nos levam a pensar que a sensibilidade ao glúten é anterior ao estilo de vida low carb ou gluten free, e que nosso corpo apenas tolerava os sintomas: havia estresse sem desconforto. Um estudo britânico relata casos de pacientes que foram diagnosticados com doença celíaca, que é uma doença genética, somente após fazerem semanas de dieta Atkins que também é livre de glúten. Já há uma estimativa de que 90 milhões de americanos sejam SGNC, isso equivaleria a quase 30% da população.

Se você sentiu melhora na sua saúde com o estilo de vida livre de glúten e teve sintomas quando o reintroduziu na dieta, consulte com um gastroenterologista atualizado sobre desordens relacionadas ao glúten. Investigue 😉

 

Quer saber mais sobre alimentação low carb e uma vida sem glúten? Sugiro esses três grupos de Facebook incríveis:

– Resistência à Insulina, Diabetes T2 e Alimentação Low Carb

– Sugestões de Pratos Low Carb para Resist. Insul e DMT2

– VIVA SEM GLUTEN

 

Referências:

https://bmcmedicine.biomedcentral.com/articles/10.1186/1741-7015-10-13

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1774636/

BRALY, J.; HOGGAN, R. O perigo do glúten: descubra como ele afeta a sua saúde e previna-se contra seus efeitos São Paulo: Alaúde, 2014.

FASANO, A. Dieta sem glúten: um guia essencial para uma vida saudável. São Paulo: Madras, 2015.

SELIE, H, Stress without distress. In: SERBAN, G. In: Psychopathology of human adaptation. New York: Springer Science, 1975. p 138-139.

 

Autora:

Rê Calixto

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