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As mágicas das estatísticas: quatrocentos pode ser igual a um!

José Carlos Brasil Peixoto 

Esse artigo é antigo, escrevi em 2004, logo após ter lido o livro dos mitos do colesterol do dr. Uffe Ravnskov. Estou republicando aqui no site saudeancestral pois é um exemplo bem interessante de como podemos usar a matemática para – sem necessariamente mentirmos – não informarmos com honestidade temas relativos às pesquisas em saúde. Os números são peças importantes no imaginário popular. E podem ser usados para persuadir as pessoas a seguirem comportamentos em busca da manutenção de saúde, pela adoção de cuidados alimentares e avaliações laboratoriais. Porém os números podem ser usados para iluminar ou encobrir. E parece que para provar que taxas de colesterol mais altas são perigosas, umas das pesquisas mais importantes da história foi usada para provar uma convicção e não para esclarecer.

A leitura completa do livro “The Cholesterol Myths” de Uffe Ravnskov traz revelações absolutamente incríveis quando fala das famosas pesquisas com populações.

As pesquisas com populações são, tradicionalmente, um dos maiores trunfos dos defensores da ideia de que o colesterol faz mal para o coração.

Para validar essa afirmação, foram elaboradas duas das mais célebres pesquisas populacionais da história da ciência médica do século XX. A pesquisa de Framingham e uma outra chamada de MRFIT, ou mister Fit para os estudiosos. (MRFIT é uma sigla que quer dizer Triagem de Múltiplos Fatores de Risco.)

Nessa última, de alto custo, mais de 300.000 pessoas foram divididas em 10 grupos – chamados de deciles – conforme a quantidade de seu colesterol no sangue, e após seis anos da pesquisa foi afirmado o seguinte: a diferença de morte, por doença de coração, entre o grupo de colesterol mais alto e o de colesterol mais baixo era de 413%! É isso mesmo: quatrocentos e treze por cento! Um fantástico número, que naturalmente nos levaria a crer sem qualquer dúvida: é preciso baixar o colesterol das pessoas. Não é mesmo?

No entanto, quando examinamos com mais atenção os dados de cada um dos grupos, os números podem levar a impressões diferentes. Vejamos o grupo com menores taxas de colesterol. Após seis anos do início da pesquisa, 99,7% das pessoas continuavam vivas, apenas 0,3% tinha morrido. Já no grupo de colesterol mais alto, (o 10° grupo), após esses mesmos seis anos 98,7 % continuavam vivos, ou em outras palavras 1,3% das pessoas tinham morrido. Veja então que a diferença entre o grupo que tinham as menores taxas de colesterol com o grupo de maiores taxas de colesterol é 1%! Obviamente não se poderia gastar milhares de dólares para se descobrir que a diferença seria tão pequena.

Assim se usou uma estratégia estatística, fazendo uma afirmação verdadeira, 413 % um valor politicamente de extremo valor, pois realmente 1,3 são 413 % de 0,3! Nada melhor do que a boa e velha matemática para apavorarmos as pessoas!

E ainda há um agravante. Como foi dito foram separados os mais de 300.000 indivíduos em dez grupos. Existe na população em geral uma doença genética pouco comum chamada de hipercolesterolemia familiar. Provavelmente todos os portadores dessa doença se encontrem nesse grupo de colesterol mais elevado. Dessa forma, se esse dado fosse depurado, retirando-se esses pacientes que não tem a mesma qualidade de saúde do que a população em geral, que não foram descobertos, talvez diferença seja menor do que esse mísero um por cento!

No estudo de Framingham, uma pequena cidade perto de Boston, os gráficos utilizados comparam dois grupos, formados por homens de meia idade dessa cidade, acompanhados por um período de 16 anos. Um dos grupos tinha 193 indivíduos que tinham doença cardíaca e ou outro 1378 que não tinham doença cardíaca. Foram colocados num gráfico para comparar as taxas médias de colesterol. Quando olhamos com mais atenção observamos que quase a metade dos que tiveram um ataque do coração tinha, na verdade, um colesterol baixo.  E após trinta anos de observação se verificou que os homens com mais de 48 anos morriam com igual frequência com qualquer taxa de colesterol (alta ou baixa). Talvez até fosse melhor dizer que os homens com colesterol mais alto viviam até um pouco mais. Sim, as tabelas, os dados crus das pesquisas de Framingham, apontam para um padrão de saúde melhor para aqueles com colesterol mais elevado.

Um ponto muito importante lembrado pelo dr. Ravnskov é que esses estudos só falam de homens. Praticamente não existe nenhum estudo que tenha mostrado qualquer relação entre colesterol elevado e problemas para as mulheres. Por exemplo, ele aponta para um estudo francês, realizado em Paris, em 1989, do qual seria possível afirmar que as mulheres mais velhas com colesterol mais alto até vivem mais!

Enfim, essa é uma curiosidade inquietante do universo das estatísticas nas pesquisas cientificas populacionais. Quem não leu ainda esse livro não deixe de procurar a versão gratuita disponível no site do autor: O link está aqui! A tradução desse capítulo aqui. O livro foi publicado no ano 2000.

 

Autor:

José Carlos Brasil Peixoto

Dr. José Carlos Brasil Peixoto – Lipidofobia

      

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